Artigos

Artigos

As armadilhas e prisões da mente 

A parceria mais importante que existe na vida é com a mente. Toda pessoa que espera alcançar realização, sucesso, harmonia, precisa estabelecer um relacionamento maduro com a mente e conhecer as suas várias faces. Caso contrário, será prisioneiro ou escravo dela e não conseguirá sair dos limites do seu círculo imaginário.

Inspirada nos textos de Yogi Bhajan


Por que as amizades acabam?


Cada amizade que nós formamos tem um significado especial, mas quando crianças, as relações de amizade tendem a ter um impacto maior.

As amizades da infância são relações que tendem a criar raízes e perdurar pela vida adulta. Esse tipo de relação apresenta longevidade por ser formada durante um momento da vida em que nós estamos realmente buscando por laços afetivos.

Na fase infantil, através das suas primeiras relações, a criança estará desenvolvendo suas expectativas sobre o mundo, sua segurança interna, experimenta ser amada e protegida. Ao mesmo tempo, aprende a compartilhar e a querer o bem do outro.

A amizade na infância, além de oferecer suporte emocional e marcar nosso desenvolvimento futuro, também é significativa por vivenciarmos juntos experiências inigualáveis de descoberta do mundo, como por exemplo, compartilhando curiosidades, brinquedo e risadas ou a primeira vez que vamos ao cinema sem os pais, a primeira vez que vamos apresentar um trabalho em sala de aula, posteriormente, a primeira paquera, etc...E, então, um mundo de significados é criado em conjunto e, por isso, muito temos a compartilhar com esta pessoa que esteve do nosso lado na infância, pois a forma de pensar e de representar o mundo a nossa volta, hoje, são resultantes de experiências infantis que dividimos com alguém.

Bem conhecemos estas amizades que carregamos conosco ao longo da vida, aquele coleguinha da escola que ainda hoje num piscar de olhos, incrivelmente, entende o que sentimos ou pensamos.

Porém, nem sempre a história é assim, em alguns casos de repente descobrimos que aquela amizade não existe mais. O que fazer quando você percebe que pouco restou de interesses em comum com seu grande amigo de infância, embora a amizade tenha anos de história e vocês tenham realmente compartilhado momentos significativos em tempos passados?

Será que a amizade acaba?

Certamente, após alguns anos, os rumos diferentes da vida e a formação de nossos interesses podem nos direcionar para caminhos opostos e aquela pessoa que tudo tinha de parecido com a gente, de repente não mais compartilha de nosso mundo.

E quanto às amizades já na fase adulta que parecem cada vez mais ter data de validade?

Diferentemente dos relacionamentos da infância, o mundo dos adultos nos mostra que a amizade pode passar muito mais rápido do que imaginamos. O indivíduo com o seu mundo estruturado e centrado no trabalho, família, estudos ou o que for, ao passar dos anos tende a dedicar menos tempo às amizades e seu foco gira em torno da necessidade da luta do dia-a-dia e, consequentemente, as amizades passam a ter um papel relacionado com suas necessidades, aquele que está estudando o que eu estudo, que iniciou o mesmo curso que eu, que sabe algo que eu preciso aprender...E superadas estas necessidades, a amizade também se vai.

As relações seguem o curso da vida, amigos vão e vem, novos e velhos - podemos, sim, retomar aquela amizade antiga que por alguma razão se distanciou de nós. As idas e vindas fazem parte da vida de todas as pessoas e nada há de errado nisso. E muitas vezes, a retomada de uma amizade só requer uma mensagem mais intimista no Facebook, por exemplo, e a partir daí um novo reencontro, mas nem todos têm facilidade para dar este primeiro passo após um período sem contato.

Além dessa diferença presente nas relações de amizade infantis em comparação com as adultas, temos que considerar, ainda, algumas características típicas de nossa época, como a fluidez com que as relações ocorrem, hoje. Vemos, por exemplo, os "milhões" de amigos que acumulamos no Facebook, amigos que surgem a todo momento e que de uma hora para a outra não me lembro mais quem são, embora façam parte da minha rede social.

Este é um bom exemplo para entendermos os vínculos na nossa época. O que chamamos de amizade, hoje, ganha um novo formato, amigos são aqueles com quem estabeleço algum contato, mesmo que superficial.

Uma sociedade que está em constante transformação, tem suas relações pessoais também em movimento. A efemeridade, a característica daquilo que é volátil, com pouca duração, permeia também as relações pessoais.

Vivemos das sensações e dos prazeres, somos atraídos pelo que nos estimula e traz sentimento de prazer e o estar junto é simplesmente por estar, por laços de interesses e identificação, por uma relação agradável e que não pressupõe apego ou vínculo maior, compartilhamos gostos, hobbies, atividades. Ao mesmo tempo, a leveza destas relações nos permite circular entre grupos diversos, explicando, assim, a velocidade com que as amizades se desfazem e se iniciam nos dias de hoje.


O outro de narciso e a fama

Tornar-se famoso, desfrutar de deferências especiais, ter a atenção de todos. Nesse fascinante desejo de sobressair-se está contida a pergunta: a quem se quer sobressair? Obter a fama é ser especial, é ser diferente dos demais, é ser único, exclui qualquer possibilidade de ser igualado a um outro. Necessita-se que esses outros se mantenham como platéia.

Quem é este ser tão especial que necessita ser admirado pelos demais? A questão remete ao conceito de narcisismo primário de Freud (1914/1974), ao reconhecer nesse indivíduo narcísico o desejo primitivo de ser o único objeto de desejo de um outro. Deste modo, torna-se incapaz de desligar-se de seu próprio eu e voltar-se para os demais, não consegue admirar ou ver qualidades em um outro ser humano, somente preocupa-se em ser admirado. Deseja realizar o seu ego ideal, processo em que só há lugar para um, ao invés de visualizar um ideal de ego que aponte para o narcisismo secundário, em que se busca o investimento narcísico em equilíbrio com o investimento objetal.

"Eu quero ser original, único, o primeiro, o mais importante, aquela coisa de perpetuar meu nome. Se você é só mais um entre muitos, você não contribui pra nada na sociedade, não faz a diferença. Eu quero ser único, se eu quero superar alguma coisa, então eu tenho que trabalhar pra isso, tenho que trabalhar pra superar todo mundo. Pra eu fazer a diferença. Eu tenho que ser o melhor, não tem porquê. Talvez até pras pessoas falarem que sou o melhor, talvez pra isso. Não sei, nunca parei pra pensar nisso, não, mas talvez até pras pessoas verem: 'É, realmente ele é muito bom, o Maurício é o melhor'" (Maurício, 24 anos).

Os indivíduos entrevistados não se dispõem a admirar um outro, mas, ao contrário disso, voltam-se a si mesmos em seu desejo de cativar o outro e fazerem-se admirados, na busca de concretizar seu ego ideal. O outro, quando mencionado, restringe-se a um objeto de sustentação do lugar de quem anseia a fama e se imagina em seu ideal. Está lá para admirá-lo, amá-lo, reconhecê-lo em suas genialidades, deslumbrar-se com sua beleza, reafirmar o quanto o famoso é especial e dar valor a sua existência. Conforme afirma Freud (1914/1974), o indivíduo que nutre investimentos narcísicos tem sua libido voltada para si mesmo e não consegue direcioná-la a qualquer outro ser. Aquele que apresenta um funcionamento narcisista deseja o amor do outro.

Mais que um simples admirador, o outro parece ter um papel impressindível para o bem-estar daquele que deseja adquirir destaque. Aquilo que faz e investe em si mesmo é um meio de obter a satisfação de ser visto por um outro.

"Minha avó juntava todas as amigas dela e mostrava pra elas as minhas fotos nas revistas, falava:'Que bonita a minha neta', eu adorava isso, agora não tem mais a minha avó pra fazer isso, pra mostrar minhas fotos, pra me elogiar. Sem isso eu desisto, se ninguém vê minhas fotos e ninguém me elogia, não tem por que, não quero mais"(Laura, 18 anos).

Com base em tudo isso, identifica-se uma grande preocupação com a imagem que se deseja passar ao outro, a fim de capturar seu olhar.

"Entrei na faculdade porque preciso investir na minha inteligência. Agora estou tentando ser inteligente, entrei na faculdade, estou estudando bastante e tal. No momento estou me dedicando à minha inteligência. Também cuido da beleza, me dedico à minha aparência, eu me visto bem, só isso, tenho roupas legais. Fora isso, pretendo voltar a fazer uma musculação, uma natação, um esporte qualquer. Quero fazer tratamento pra crescer, mas acho que não vai ser muito fácil, vai precisar de hormônio, mas eu quero fazer sim" (Renã, 18 anos).

A relação com o outro parece ser permeada por um desejo profundo de tornar-se importante. À medida que o indivíduo procura parecer interessante e especial aos olhos dos outros, também se sente especial a seus próprios olhos. O parecer converte-se em ser. O papel do outro expande-se de forma a ser um meio de acreditar em seu próprio valor. Pretende-se fazer parecer como se a particular perfeição tivesse sido conseguida e para isso, precisa se mostrar aos olhos dos outros. É aquilo que os outros vêem que causa preocupações, uma vez que é somente através da admiração de um outro que sua perfeição pode ser posta em dúvida ou afirmada. A aparência torna-se enganadora e superficial por ser uma tentativa de encobrir o indesejável e desvalorizado em si mesmo. O indivíduo dependente do olhar do outro deixa transparecer sua necessidade de convencer-se a si mesmo de sua importância através do reconhecimento alheio. E, por outro lado, sem esse reconhecimento, não lhe é possível crer em seu valor próprio.

"Quando me elogiam, me sinto um balão, nossa, você enche, você se acha, acha poderosa, tem auto-estima maior e quando você não tem isso aí seu balão vai esvaziando aí não te elogiam de novo, então esvazia mais até que você não vai ter mais, vai estar murchinho, murchinho. Pra mim é muito ruim, pra mim é importante, preciso que continuem falando pra que eu continue acreditando. Se não me elogiam, já era, me sinto um lixo" (Ana, 21 anos).

Essa busca de si em um outro, utilizado como espelho, é encontrada de forma extremada (contudo não assumida) na fala dos participantes, não apenas como um meio de sentir-se valorizado, mas de sentir-se e provar (-se) que é superior.

"O status é o que chama mais, ter uma vida fácil com dinheiro fácil é claro que é bom, mas o status chama mais. Status é ter uma posição superior, me achar superior, é justamente isso, me sentir superior. Não sei se é essa a palavra, achar que sou melhor que os outros, isso não, mas não pelo lado de achar que sou melhor, talvez seja pelos outros acharem, justamente" (Milena, 25 anos).

Outro aspecto de interesse no discurso dos participantes é a amplitude desse outro cuja admiração eles buscam. Conforme expressam, há sempre o desejo de atingir um número de pessoas virtualmente ilimitado, e o aplauso das pessoas mais próximas é visto somente como o começo de uma fama muito mais grandiosa. Bem como afirma Berry (1987/1991), o desejo de diferenciar-se da massa parece ser algo em comum entre os homens na atualidade.

"Começou na escola, as pessoas falando, a família, fiz trabalho no Rio de janeiro e me viram lá e aí começaram na rua: 'Ai, você, te vi.' Eu falava: 'Que legal! Agora sou a famosa da escola.' Daí, você vai querendo conquistar outros espaços, vai querendo que mais pessoas te conheçam. (...) No Brasil inteiro pra começar, só o início. O auge não tem, pra mim não tem, quero mais e mais e mais e se tem mais eu vou, se puder ser no mundo inteiro, ótimo, fora do mundo inteiro, não tem, sabe, um teto, não tem limite" (Ana, 21 anos).

Clínica Psicológica Dra. Andrea Vaz Mercki
Desenvolvido por Webnode
Crie seu site grátis! Este site foi criado com Webnode. Crie um grátis para você também! Comece agora